Histórico

Em meio aos acontecimentos do início dos anos 30, um grupo de jovens profissionais toma uma iniciativa inusitada: fundar uma nova escola médica como Sociedade Anônima. A Faculdade de Ciências Médicas foi fundada em 1936 e reconhecida em 1940. Os seus fundadores eram médicos oriundos de vários lugares: membros da Academia Nacional de Medicina, atuantes no conselho Científico e nas comissões editoriais responsáveis pelos Anais e Boletins. A motivação destes profissionais está ligada às disputas por espaço e hegemonia no campo médico do Rio de Janeiro da época. Buscavam um espaço próprio onde pudessem exercer a cátedra, ocupadas todas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro por figuras mais tradicionais da elite brasileira. Traziam consigo as aspirações da classe média urbana em expansão à época, de fomentar a educação no país e criar corpos significativos de profissionais de nível superior. Não obstante, a organização da nova escola e sua autorização para funcionamento está pautada nas formas tradicionais no Brasil, de alianças com o poder já constituído e de apropriação da coisa pública para fins privados. Assim, entre os sócios da nova Sociedade Anônima figuram o Prefeito Pedro Ernesto, e, após sua destituição, o Prefeito Henrique Dodsworth.

Na primeira turma formaram-se 17 alunos e em 1942 e 1943 não houve colação de grau. O número de alunos aumentou paulatinamente a partir de então, chegando quase cem ao final dos anos 40. Os alunos tinham seus estágios práticos nos hospitais públicos onde os professores eram chefes de serviço, e circulavam assim por toda a cidade. Construiu-se um prédio para cadeiras básicas em São Cristóvão e em seguida, a Sociedade Anônima passa a construir um Hospital no mesmo endereço e pode ser observado nas Atas de reunião o anseio dos professores por um Hospital de Clínicas. Em 1950, a FCM passou a pertencer à Universidade do Distrito Federal e a partir deste momento começou a receber subsídios da Prefeitura. Ainda na década de cinquenta, os catedráticos mais prestigiosos da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil terminaram por se render ao sucesso da FCM e aos poucos prestaram concursos, migrando para a nova escola em formação. Todos discutiam acirradamente em torno da necessidade do Hospital e da qualidade da formação. Anos mais tarde, a

Faculdade recebeu o Hospital Pedro Ernesto como seu Hospital de Clínicas, planejado pelo próprio Prefeito como o hospital de referência para todas as emergências da cidade; a construção já estava iniciada quando foi deposto, mas as obras se arrastaram e sua inauguração só se deu em 1950. A Faculdade e o Prefeito se reencontraram em 1961, quando o governador Carlos Lacerda fundou a Universidade do Estado da Guanabara e transferiu o hospital para a nova Universidade.

A inauguração da Universidade do Estado da Guanabara trouxe para a FCM, finalmente, o seu desejado Hospital de Clínicas. É notável o aumento da participação dos alunos nos processos de decisão institucional na década de sessenta. A Faculdade não possuía biblioteca, que foi criada pelo Centro Acadêmico Sir Alexander Fleming – BIMA (Biblioteca Manoel de Abreu). Greves, passeatas e comícios foram realizados em prol da mudança da Faculdade para Vila Isabel e pela apropriação do Hospital Pedro Ernesto. A participação do corpo de alunos se intensificou e foi valorizada a partir da contratação dos recém-formados como professores na Faculdade em expansão. Muitos egressos foram continuamente absorvidos como médicos do hospital e docentes. O auge desta política “endogâmica” se deu em 1974 e 1975.

Seguir a trajetória da Faculdade Ciências Médicas é, talvez, seguir os ideais de dois grupos em tempos distintos. Primeiro os de Rolando Monteiro e seus seguidores, ideais do clínico liberal, que pretendia estar a serviço da sociedade por meio de sua livre iniciativa e centrado em um projeto de prestígio profissional. Seus sucessores constituíram um grupo distinto, em que o arrojo e a ousadia centravam-se mais de perto na vida política da capital e em propósitos educativos e de cunho científico contemporâneos. É também seguir a trajetória de uma instituição que, livre do peso da tradição da faculdade criada por D. João VI, pode renovar e encampar propostas de ensino e práticas médicas mais arrojadas.

A Congregação tinha o modelo Flexner idealizado no início do século XX como proposta ideal para a escola, direcionando a reformulação das escolas médicas a partir de uma visão compartimentalizada, com a divisão do curso em disciplinas básicas e clínicas, e ênfase nos conhecimentos especializados. Essa mudança foi seguida pelas escolas médicas americanas e canadenses na época, sendo este modelo também praticado na maioria das escolas médicas brasileiras. Os educadores à época tinham

algumas aspirações para o ensino médico: o professor em dedicação de tempo integral, o ensino acoplado à pesquisa e o hospital universitário como centro de pesquisa clínica.

Piquet Carneiro, em sua busca para dotar o ensino médico das pautas científicas propostas por Flexner, terminou por plasmar em boa parte a face atual do Centro Biomédico da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A atividade de modernizar a cadeira de Higiene, entrelaçando conhecimentos de Ciências Sociais com os da saúde pública tradicional, deu origem ao Instituto de Medicina Social (IMS) e, em seguida, às primeiras ideias de integração docente assistencial e de atendimento humanizado ao paciente, através da criação do Ambulatório de Medicina Integral. A liderança de Piquet Carneiro é tanto mais notável quando se constata seu prestígio entre os estudantes, algo difícil em uma época de radicalização política como a dos anos sessenta.

A Faculdade de Ciências Médicas foi pioneira na implantação do Convênio Ministério da Educação e Cultura (MEC) e Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) em 1975, que logo se disseminou pelos demais Hospitais Universitários do país, e foi gerenciado pelo Prof. Jayme Landmann. Sua direção trabalhou para tornar o Hospital de Clínicas uma unidade capaz de preparar o médico para a realidade assistencial de seu país.

A Faculdade de Ciências Médicas acumula desde a década de 80 experiências de integração ensino & serviço para alunos do último ano de graduação médica (internato). A primeira iniciativa foi implementada no contexto da introdução das Ações Integradas de Saúde na região norte do estado do Rio de Janeiro. Naquele momento o chamado Internato Rural foi uma proposta que articulava o Instituto de Medicina Social e a Disciplina de Medicina Integral da FCM e com o INAMPS em sua iniciativa de descentralização da gestão e desenvolvimento de serviços e recursos humanos nos municípios. Estratégia que pavimentava o caminho para a constituição do Sistema Único Descentralizado de Saúde e posteriormente o Sistema único de Saúde (SUS). Participavam deste internato alunos da FCM e de outras escolas do estado de modo opcional e por um período de dois meses ficavam sediados nos municípios onde atuavam em centros de saúde.

Esta iniciativa era fundamentada na experiência pioneira do Internato Rural da Universidade Federal de Minas Gerais, no desenvolvimento dos princípios da Atenção

Primária à Saúde (APS), nas críticas ao ensino médico e nas propostas de reforma sanitária em gestação naquele período. Esta experiência de Internato Rural no norte fluminense perdurou por cinco anos e depois foi deslocada para o município de Resende, no sul do estado, onde permaneceu por mais cinco anos. As mudanças na organização política do sistema, a saída de cena do INAMPS como coordenador das ações, a falta de apoio das prefeituras (agora gestoras locais do sistema de saúde) e o progressivo desinteresse dos alunos em participar deste tipo de experiência de interiorização levaram ao encerramento do Internato Rural.

Em 2004 o Internato rural foi retomado na FCM em uma iniciativa de alunos de graduação, do já instituído Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitário da FCM/UERJ (DMIF) e da Secretaria de Saúde do Município de São Pedro da Aldeia. Este treinamento em serviço se estruturou em um novo contexto da política de saúde e de mudanças propostas para o ensino médico derivadas das Diretrizes Curriculares. Até hoje a FCM mantém seus alunos em atividades em serviços de saúde de atenção básica, tendo sido pioneira na organização de um departamento cuja temática abrange especialmente o campo da medicina de família e comunidade.

Este histórico de inovações e liderança acompanha a FCM desde então. Permanece como uma escola de referência no Estado e no país, e seus egressos são considerados de maneira diferenciada ao iniciar suas atividades no mercado de trabalho. Em sintonia com movimentos da UERJ como um todo, desenvolveu cursos de pós graduação que receberam avaliação com nota máxima nos últimos anos. A estreita parceria com o HUPE também pode ser considerada como um diferencial na formação médica assim como seu corpo docente altamente qualificado. A proposta é seguir sintonizada com o que tem sido preconizado sobre educação medica na contemporaneidade, participando ativamente do debate quanto às novas diretrizes e normativas relacionas à formação de médico.

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